07 mar 2017

Alta no minério de ferro pode desengavetar novos projetos

Foto divulgação

São Paulo – Com a escalada inesperada dos preços do minério de ferro, que atingiram um patamar mais confortável, projetos que estavam engavetados podem voltar a ser discutidos. Além disso, o mercado espera um ambiente mais favorável para fusões e aquisições.

A commodity corresponde a cerca de 80% da produção mineral brasileira e vem enfrentando fortes oscilações de preços desde o final de 2014.

“O que temos visto é uma desaceleração da queda de novos projetos com a estabilidade das cotações do minério de ferro. As consultas voltaram a acontecer”, diz o gerente de mineração da Pöyry, Antônio Bernucci.

Diante do aumento significativo da oferta global e da desaceleração do consumo chinês, a cotação chegou a ficar abaixo dos US$ 40 por tonelada ao final de 2015. Com isso, mineradoras como a brasileira Vale sentiram uma forte pressão no caixa.

Uma das medidas anunciadas pela companhia foi um programa de desinvestimentos. Contudo, em um mercado inundado por novas capacidades, a Vale encontrou um cenário difícil para vender ativos.

Agora, de acordo com Bernucci, as perspectivas de preços no curto e médio prazo estimulam fusões e aquisições. “Não só teremos um cenário mais propício para estes movimentos, mas também para aumentos de capacidade”, avalia.

Segundo projeções da Tendências Consultoria, a cotação média do minério de ferro deve ficar em US$ 65 por tonelada em 2017, aumento de 12% em relação ao ano passado.

“O mercado teve um rali adicional de preços no primeiro bimestre puxado por problemas pontuais de oferta, como chuvas na Austrália e aquecimento da demanda chinesa, o que deve elevar um pouco a média do ano”, afirma o analista da Tendências, Felipe Beraldi.

Porém, ele não descarta um novo movimento de queda dos preços. “A volatilidade foi tão grande neste período que a cotação pode voltar rapidamente a cair”, acrescenta.

Nesta segunda-feira (06), a cotação recuou para pouco mais de US$ 89 a tonelada. Na semana passada, atingiu US$ 94. “Os estoques na China têm se mantido cada vez mais estáveis. Hoje, as siderúrgicas chinesas estão bastante estocadas”, pontua o analista da Tendências.

Neste cenário, as três maiores mineradoras do mundo, a Vale e as anglo-australianas Rio Tinto e BHP Billiton, devem concentrar mais de 30% do mercado global, afirma Beraldi. “Estas empresas continuarão tendo o menor custo de produção e tendem a ganhar ainda mais market share”, comenta o analista.

Ele pontua que a Vale possui o menor custo de produção do mundo, excluindo o frete, principal trunfo das concorrentes australianas. Mas com o ramp up do maior projeto da mineradora brasileira, o S11D em Carajás (PA), a companhia deve ganhar mais competitividade.

“Nos próximos anos, a Vale terá um custo ainda menor de produção, o que deve garantir fôlego extra em relação às suas rivais, que estão bem mais próximas à China, maior consumidor de minério de ferro do mundo.”

Relevância global

O gerente da Pöyry acrescenta que o Brasil terá um papel de destaque no mercado global com a maturação do S11D. “Apesar do risco de sobrecapacidade global, que deve permanecer no médio prazo, o País continuará sendo um grande player neste acirrado mercado”, analisa Bernucci.

Ele conta que, diante da queda dos preços do minério de ferro, novos projetos e até a pesquisa mineral foram colocados em espera no País. Mas com a escalada recente das cotações, as oportunidades no setor crescem de maneira importante, sobretudo no Brasil.

“O aumento dos preços abre espaço para que empresas de menor porte também possam voltar à cena”, explica Bernucci. Ele comenta que a Vale, por ter uma estrutura muito grande, se concentra naturalmente em projetos maiores.

“Mas isso não quer dizer que não haja espaço para que juniors explorem o mercado brasileiro”, complementa.

Bernucci observa que as empresas com plantas já existentes voltaram a avaliar planos de retomada de capacidade com a melhora dos preços do minério de ferro, o que pode trazer investimentos adicionais ao País.

“Diante da queda das cotações, as mineradoras se voltaram naturalmente para seu corebusiness, colocando ativos à venda. No entanto, com a recuperação dos preços, muitos projetos se tornam viáveis novamente”, relata ele.

O executivo alerta, entretanto, para as oscilações de preços frequentes do minério de ferro. “Nem os mais otimistas projetavam a cotação atual da commodity. A expectativa é que, ao longo do ano, os preços voltem a cair”, estima. “Com isso, as empresas devem esperar um pouco mais para tomar decisões importantes e ‘surfar’ neste período de alta”, pontua.

A Tendências trabalha com um intervalo de US$ 55 a US$ 60 a tonelada para o terceiro trimestre do ano, puxado pela estabilização dos estoques na China e o ramp up do S11D da Vale. Além disso, as minas de baixo custo da Austrália, incluindo a gigante Roy Hill, da Rio Tinto no complexo de Pilbara, também devem contribuir para uma acomodação das cotações ao longo do ano.

Risco chinês

Beraldi alerta ainda para o risco da demanda chinesa. “Aos poucos, o governo da China deve retirar os estímulos à infraestrutura e ao mercado imobiliário para se voltar mais para o consumo interno, o que pode impactar a demanda por commodities”, elucida o analista.

Ele afirma que o endividamento na China está excessivamente alto e a tendência é que o governo reduza gradualmente os investimentos nas áreas ligadas à construção. “Isso inclusive já está acontecendo. Prova disso é a queda efetiva da produção siderúrgica no país asiático.”

Ainda assim, a China continuará sendo o maior consumidor de commodities do mundo, disputando todas as atenções do mercado global. “A demanda chinesa se manterá bastante aquecida, porém, um outro risco ainda é a sobrecapacidade em minério de ferro”, alerta.

Ainda assim, segundo Beraldi, as chamadas majors do setor devem continuar com seus planos de acelerar a produção para ganhar participação de mercado. “Cotações de até US$ 40 a tonelada ainda representam um patamar rentável para estas empresas”, comenta.

Contudo, a média atual também incentiva a volta de minas que estavam paralisadas. “Preços mais elevados encorajam o retorno de empreendimentos que estavam parados, o que pode causar um novo ciclo de queda das cotações”, indica o analista. “É importante lembrar que este é um mercado altamente volátil”, acrescenta.

Fonte:

www.dci.com.br

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